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Abracadabra, 4? semana do ano do Senhor de 2008.
Talvez a idéia do índio fumando o cachimbo seja uma maneira bastante correta de se apresentar essas práticas:
O índio que está com o cachimbo puxa fundo a fumaça, deixa-a girar pela cabeça, e, inebriado pelos efeitos, o começa a narrar suas experiências, suas visões...
Os outros índios, sentados em círculo ao redor da fogueira, ouvem aqueles contos e aguardam o momento em que eles mesmos estarão tragando a fumaça mágica, vivendo seus próprias viagens oníricas.
Assim, acendo meu cachimbo, recém trazido de Abracadabra, e começo a narrar meus contos, minhas visões, enquanto encho cada vez mais os pulmões com a fumaça e a deixo circular.
Daqui a pouco passo o cachimbo.
A recapitulação, ou reexposição:
Lembro-me do dia em que decidi praticar esse exercício estupendo.
Estava em plena juventude; para alguns, uma época de exageros nas ações, muitos vícios, mas de muitas, muitas virtudes.
Quando a técnica me foi apresentada eu não fazia idéia da extensão de seus efeitos, muito menos da dificuldade de sua execução. Acho mesmo que se eu fizesse alguma idéia, talvez nunca a tivesse começado.
Mas, protegido que estava pela ignorância, comecei-a.
Cheguei da viagem à Chapada dos Veadeiros e pus mãos à obra.
Optei pela caixa, em lugar da caverna.
Caixa? Caverna?
Os índios praticavam esse exercício dentro de cavernas.
Como símbolo, as cavernas significavam os limites do ego.
Considerada desde muito tempo como um local sagrado, o útero da Mãe-Terra, é o templo natural onde ocorrem as transformações e os renascimentos. A caverna pode simbolizar também tanto o útero como o túmulo, a morte e o renascer, a "imagem da busca interior que nos leva pelo caminho da individuação".
Morava, naquela época, em Curitiba, e seria difícil achar uma caverna para realizar a prática.
Uma alternativa era substituir a caverna por uma caixa, e em certo grau, buscar as mesmas representações simbólicas.
Aquele dia amanheceu bastante frio. Saí de manhã para arranjar as tábuas para minha caixa. Relacionei algumas madeireiras localizadas em ruas conhecidas e marchei para lá. Parei na primeira loja da lista e entrei.
O dono, sentado num toco de pau e fumando, comentou sobre o frio e perguntou-me o que eu queria.
Respondi que precisava de tábuas para montar uma caixa. Uma caixa que coubesse uma máquina de lavar roupas (em se respeitando a analogia, eu queria mesmo lavar algumas "roupas sujas" de meu passado; o fato não era de todo uma mentira).
Acrescentei que poderia ser sobra de madeira barata, pois após a caixa cumprir seu uso eu iria me desfazer dela.
Ele apontou para uma pilha e lá estavam elas, todas elas, na medida e espessuras certas.
Perguntei-o se poderia me ceder aquelas tábuas (parecidas com aquelas que você encontra em caixas de tomates, nas feiras), e ele respondeu que não só as cederia, como as cortaria no tamanho que eu quisesse.
Opa!
Que achado! Tábuas cortadas em um metro. Eu poderia começar naquele mesmo sábado a construir minha "caixa de reexposição"!
Coisa interessante...
O fato de haver me preparado, como num ritual, para iniciar essa ação parece ter conduzido a experiência para um resultado direto. Quando saí para arranjar as tábuas, eu poderia ter vivido duas situações diferentes: gastar toda manhã tentando encontrar uma madeireira que tivesse um alguém que me quebrasse o galho, ou, como aconteceu, acertar logo de primeira. Talvez, se eu houvesse saído para procurar madeiras para pendurar cortinas eu tivesse mais dificuldade; mas, essa minha ação estava carregada de atenção. Isso facilitou.
À noite eu estava no meu quarto, com todas as tábuas no chão, um vidro de cola (já que a caixa deveria ser construída sem pregos, apenas com cola ou corda) e uma bacia cheia de água. Iria lavá-las, todas.
Lavá-las não fazia parte do cerimonial. Lavei-as simplesmente por não suportar poeira, já que eu teria que respirar lá dentro.
Mas o ato de lavá-las mostrou-se, no final, além de muito asseado, bastante singular.
Por que singular?
Singular porque como qualquer ato envolvendo um objetivo ritual, esse também necessitava de uma "atenção" especial para praticá-lo, e eu lavei cada peça em profunda concentração.
Essa atenção fez com que eu conhecesse, uma a uma, toda a madeira que eu usaria na construção da caixa. Conheci todas as ranhuras, todos os nós, todos os desenhos impressos nas tábuas pela variação do matiz das cores da madeira, e quando eu estava dentro da caixa, na penumbra, preparando-me para as respirações, mirava os nós da madeira em formas de grandes olhos negros, espiando-me, como que desnudando meus segredos, provocando um raro efeito sublimação.
No meio da madrugada a caixa estava pronta, ocupando todo o espaço livre do meu quarto.
Mas antes de entrar na caixa, tive que preparar a lista.
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